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Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor até o final do ano, alerta estudo

O Brasil deve registrar no mínimo seis ondas de calor entre os meses de setembro e dezembro de 2026, de acordo com uma análise técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O estudo indica que a frequência dos eventos extremos pode aumentar à medida que o fenômeno El Niño se fortaleça no Oceano Pacífico, com chance de evoluir para a categoria de “Super El Niño”.

A projeção foi obtida a partir da análise de um histórico de 47 anos de dados meteorológicos em períodos sob a influência do El Niño. Diferentemente de dias isolados de altas temperaturas, a onda de calor é caracterizada tecnicamente quando as temperaturas máximas e mínimas permanecem significativamente acima da média climatológica por, no mínimo, três dias consecutivos.

Segundo a pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em Ciências do Sistema Terrestre e especialista do Cemaden, a estimativa de seis episódios é uma média projetada, mas o número real pode ser maior. Na temporada anterior sob o fenômeno, ocorrida entre 2023 e 2024, o país registrou nove ondas de calor — o maior volume da série histórica iniciada em 1979.

Mudança no padrão geográfico e bloqueios atmosféricos

O levantamento do Cemaden destaca uma mudança no comportamento do clima no país ao longo das últimas décadas. Nas décadas de 1980 e 1990, episódios de calor extremo ocorriam de forma pontual e isolada, concentrando-se principalmente na Região Nordeste. A partir de 2010, e de forma mais acentuada desde 2020, os eventos passaram a cobrir extensas áreas simultaneamente, atingindo praticamente todo o território nacional.

Meteorologicamente, o gatilho das ondas de calor é a formação de sistemas de alta pressão que atuam como uma tampa sobre determinada região. Esse bloqueio impede a formação de nuvens e a chegada de frentes frias, aprisionando uma massa de ar seco e quente sobre o continente. Sem a cobertura de nuvens e a precipitação para resfriar o solo, o calor se intensifica de forma contínua.

Especialistas ressaltam que as mudanças climáticas globais elevam a temperatura de base sobre a qual esses bloqueios atmosféricos operam, fazendo com que os picos de calor atinjam patamares mais elevados em comparação com o passado.

Primeiros impactos em setembro e regiões afetadas

De acordo com o meteorologista Marcelo Seluchi, também do Cemaden, os primeiros impactos mais evidentes da configuração atual do El Niño devem ocorrer em setembro. Previsões apontam que diversas áreas do país poderão registrar temperaturas até 3°C acima da média histórica. O cenário previsto inclui calor intenso no Centro-Sul e concentração de chuvas na Região Sul.

A intensificação do calor também agrava o quadro de estiagem. Dados do Índice Integrado de Seca indicam que 157 municípios brasileiros enfrentam seca severa, com maior concentração nos estados do Tocantins (50 municípios) e da Bahia (18 municípios). A pesquisadora Ana Paula Cunha aponta que o Norte e o Nordeste tendem a ser as regiões mais impactadas pela escassez de chuvas no período.

Risco de queimadas e impactos econômicos

A combinação de temperaturas elevadas e baixa umidade eleva o risco de incêndios florestais. Um monitoramento conjunto realizado pelo CPTEC/Inpe, pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) aponta que 560 municípios — equivalentes a cerca de 35% do território nacional — estão sob alerta alto para risco de fogo, com faixa crítica situada entre a Amazônia e o Pantanal.

Diante do quadro, o Ministério do Meio Ambiente mantém a mobilização de mais de 4,6 mil brigadistas federais para atuação no combate aos focos de incêndio. Além do impacto ambiental, o choque climático pode trazer reflexos na economia, com estimativas de alta nos preços de alimentos in natura, como hortaliças e carnes, nos meses seguintes à consolidação do fenômeno.

Michel Belli (Editor-Chefe)
Michel Belli (Editor-Chefe)https://odiariodacidade.com.br
Michel Belli é jornalista, servidor público graduado em Gestão Pública e veterano em Ciência Política. Une experiência sólida em administração pública e comunicação estratégica à atuação jornalística independente, com foco na construção de informação responsável, acessível e alinhada ao interesse coletivo. Criador e diretor do portal O Diário da Cidade, desenvolve projetos voltados à inovação digital, impacto social e fortalecimento comunitário por meio da comunicação transparente e profissional.

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