Estimado para afetar ao menos 25 milhões de pessoas em todo o planeta, o diabetes tipo 5 é uma condição diretamente ligada à desnutrição e à insegurança alimentar. Recentemente incluído nos documentos oficiais da Federação Internacional de Diabetes (IDF), este tipo da doença começará a ser alvo de um projeto de rastreamento estruturado no Brasil, com foco inicial nas regiões Norte e Nordeste, onde são registrados os maiores índices de carência nutricional do país.
O que é o diabetes tipo 5 e sua origem histórica
Embora a inclusão em diretrizes formais e relatórios da Federação Internacional de Diabetes seja recente, o diabetes tipo 5 não é uma descoberta inédita na literatura médica. A condição foi descrita originariamente há 71 anos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas permaneceu durante décadas à margem das classificações padronizadas das principais entidades globais de saúde.
A doença é desencadeada pela falta de nutrição adequada durante períodos decisivos para o desenvolvimento do pâncreas, em geral na infância ou na adolescência. O déficit grave de nutrientes compromete o crescimento saudável do órgão, resultando em uma capacidade permanentemente reduzida de produzir insulina.
Esse tipo da enfermidade afeta prioritariamente populações de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, nos quais a pobreza extrema e a escassez crônica de alimentos prejudicam o desenvolvimento físico infantil. Com o reconhecimento formal aprovado em abril do ano passado pela IDF, o objetivo dos especialistas é dar visibilidade e precisão clínica a um problema de saúde pública historicamente negligenciado.
Diferenças marcantes em relação aos tipos 1 e 2
Um dos maiores desafios enfrentados pelos profissionais de saúde é evitar o diagnóstico equivocado do diabetes tipo 5, que é frequentemente confundido com as formas mais populares da patologia. Enquanto o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune e o tipo 2 está habitualmente associado à resistência à insulina e ao excesso de peso, o tipo 5 possui um perfil clínico bastante específico.
No diabetes tipo 5, a pessoa apresenta uma produção bastante reduzida de insulina por parte do pâncreas, mas o organismo preserva a sensibilidade normal ao hormônio. Isso significa que não há a resistência insulinêmica observada no tipo 2 e tampouco o ataque imunológico às células pancreáticas característico do tipo 1.
As características clínicas que auxiliam os médicos a identificar o quadro incluem:
- Índice de Massa Corporal (IMC) geralmente abaixo de 18,5 kg/m², caracterizando indivíduos muito magros;
- Diagnóstico da doença tipicamente realizado antes dos 30 anos de idade;
- Histórico comprovado de desnutrição grave ou insegurança alimentar na infância e juventude;
- Quadro de hiperglicemia intensa (níveis elevados de açúcar na corrente sanguínea);
- Baixa reserva de insulina no pâncreas combinada com ausência de autoanticorpos ou de resistência à insulina.
Riscos do diagnóstico incorreto e da subnotificação
A falta de classificação formal ao longo de décadas gerou um cenário preocupante de subnotificação em escala global. Quando um paciente com diabetes tipo 5 recebe o diagnóstico inadequado de tipo 1 ou tipo 2, a conduta terapêutica adotada pode não atender às necessidades reais do seu organismo.
A ausência de um tratamento direcionado e assertivo eleva de forma expressiva as chances de desenvolvimento de complicações graves e crônicas decorrentes do descontrole da glicose. Entre os problemas de saúde mais recorrentes causados pela conduta incorreta estão a retinopatia (que afeta a visão), a neuropatia (que atinge os nervos periféricos) e o comprometimento da função renal (doença renal).
De acordo com a endocrinologista Hermelinda Cordeiro Pedrosa, vice-presidente global da IDF e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o reconhecimento da entidade é crucial para reverter essa realidade. A médica destaca que a prioridade atual é identificar adequadamente essas pessoas, corrigir erros prévios de classificação e ofertar abordagens terapêuticas alinhadas às características fisiológicas do paciente.
Particularidades do tratamento e cuidados medicamentosos
O manejo do diabetes tipo 5 exige cautela médica redobrada em relação à prescrição de remédios e à administração de insulina. Como a pessoa afetada retém a sensibilidade ao hormônio, mas possui baixa produção natural, a aplicação de doses elevadas de insulina — comuns no tratamento convencional dos tipos 1 e 2 — representa um risco sério, podendo provocar episódios de hipoglicemia severa.
Atualmente, não existe um medicamento específico ou um esquema terapêutico estabelecido como padrão internacional único para o combate à doença. Os protocolos indicam que determinados pacientes respondem bem ao uso de insulina em doses muito baixas, enquanto outros podem ser controlados de forma eficaz com o auxílio de medicamentos orais.
A definição do diagnóstico exato e da conduta adequada envolve a análise criteriosa da história clínica e nutricional do indivíduo, aliada a exames laboratoriais específicos. Entre os testes fundamentais estão a dosagem de peptídeo C — responsável por medir a capacidade real do pâncreas em produzir insulina — e a pesquisa de autoanticorpos, para descartar processos autoimunes.
Iniciativa de rastreamento no Brasil
Para mapear a ocorrência e transformar a realidade do atendimento no país, o Brasil vai implementar uma plataforma pioneira de rastreamento do diabetes tipo 5. A novidade foi apresentada formalmente durante o Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia.
A iniciativa internacional da IDF no território brasileiro será executada em uma ação conjunta que reúne a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A nova ferramenta de rastreio terá como base estudos acadêmicos e científicos desenvolvidos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A escolha de iniciar o mapeamento pelas regiões Norte e Nordeste se deve à concentração histórica dos maiores índices de desnutrição e insegurança alimentar do país nessas localidades. Com o mapeamento ativo, os órgãos de saúde esperam quantificar com precisão os afetados, qualificar a rede de atendimento e oferecer diretrizes claras para as equipes médicas em todo o território nacional.




