Um levantamento publicado no jornal científico JAMA Network Open indicou que a Dieta da Saúde Planetária e um padrão alimentar focado na baixa resposta à insulina apresentaram as melhores taxas de retenção no ganho de peso e de prevenção da obesidade entre mulheres na menopausa.
A investigação foi desenvolvida por cientistas da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em colaboração com a Universidade Nacional de Singapura. O grupo acompanhou 38.283 participantes integrantes do estudo de longo prazo Nurses’ Health Study II ao longo de um período de 12 anos, compreendendo seis anos que antecederam a transição para a menopausa e seis anos após esse marco biológico.
O objetivo do trabalho consistiu em comparar 11 padrões alimentares distintos para apurar de que maneira as escolhas nutricionais se correlacionam com a alteração do peso e o risco do desenvolvimento de obesidade durante a meia-idade. Entre as metodologias analisadas figuravam modelos renomados, como a Dieta Mediterrânea e a Dieta DASH, estratégias totalmente baseadas em plantas, propostas com restrição de carboidratos (low carb), além de classificações baseadas no potencial inflamatório e na resposta insulinêmica do organismo.
Transformações hormonais e metabólicas no climatério
O ganho de peso e a redistribuição da gordura corporal constituem queixas frequentes entre mulheres no climatério. A literatura médica aponta que as variações no metabolismo ocorrem em grande parte devido à queda na produção de estrogênio. Essa redução hormonal afeta o direcionamento da gordura, concentrando-a predominantemente na região abdominal, além de modificar mecanismos associados ao apetite e ao gasto energético.
Ao longo dos 12 anos do acompanhamento no estudo, o ganho ponderal médio registrado entre as voluntárias foi de 0,8 quilo por ano. No decorrer desse intervalo de monitoramento, 5.214 participantes atingiram critérios para a classificação de obesidade.
Entre as 11 diretrizes nutricionais submetidas ao escrutínio dos pesquisadores, o modelo focado na baixa resposta à insulina destacou-se com a associação mais marcante no bloqueio ao ganho de peso contínuo. Já na avaliação direcionada especificamente à prevenção do diagnóstico de obesidade, a maior taxa de adesão à Dieta da Saúde Planetária e ao modelo de menor estímulo insulinêmico garantiu os indicadores protetivos mais expressivos.
Características da Dieta da Saúde Planetária e da resposta à insulina
Embora formulados sob premissas teóricas distintas, os dois padrões de nutrição que obtiveram o melhor desempenho compartilham estruturas alimentares semelhantes. Ambas as metodologias priorizam ingredientes de origem vegetal e reservam pouco espaço para proteínas de carne vermelha, itens processados, vegetais ricos em amido como batatas, pratos fritos e refeições com alto teor de sódio.
A Dieta da Saúde Planetária foi concebida pela comissão internacional EAT-Lancet com o propósito de aliar a promoção da saúde humana à sustentabilidade ambiental do planeta. A sua composição orienta que pratos e refeições sejam compostos predominantemente por legumes, verduras, frutas, grãos integrais, sementes, castanhas e leguminosas como feijões e lentilhas. O consumo de carnes vermelhas ou processadas e de carboidratos refinados é drasticamente reduzido, embora a proposta não exija a exclusão total de alimentos de origem animal.
Por sua vez, o padrão alimentar voltado à baixa resposta à insulina foi medido por meio do índice EDIH (sigla em inglês para Índice Dietético Empírico para Hiperinsulinemia). A métrica calcula o grau de estímulo que uma refeição exerce sobre a produção do hormônio insulina pelo pâncreas.
A análise epidemiológica apontou que cardápios com pontuações elevadas no índice insulinêmico contavam com presença frequente de carnes vermelhas, produtos processados, frituras e itens ricos em sódio. Em contrapartida, porções abundantes de frutas, cereais integrais e fontes de proteínas vegetais atuaram em sentido inverso, demonstrando menor solicitação na secreção de insulina.
Mecanismos fisiológicos e a ação no organismo
A explicação teórica para o desempenho superior desses dois modelos alimentares passa pela compreensão da dinâmica metabólica feminina na meia-idade. A diminuição do estrogênio remove uma proteção natural contra processos inflamatórios, tornando o corpo feminino mais propenso a quadros de inflamação crônica de baixo grau.
A presença de um estado inflamatório persistente prejudica a sensibilidade celular à insulina, o que desregula a sinalização metabólica, favorece o acúmulo de gordura visceral na região do abdômen e dificulta a gestão do peso.
Nesse cenário, a ingestão volumosa de fibras, grãos integrais, castanhas e sementes atua como moduladora da absorção glicêmica. As fibras retardam a passagem da glicose para a corrente sanguínea, suavizando os picos de açúcar e a necessidade de produção compensatória de insulina, além de promoverem a microbiota intestinal.
A médica nutróloga e especialista em medicina do estilo de vida Vânia Assaly destaca que a alimentação planetária reúne pilares fundamentais para essa fase. Segundo a especialista, o padrão atua na regulação do ecossistema intestinal, no controle do estresse oxidativo e na redução da carga glicêmica da dieta.
A médica também salienta aspectos referentes à ingestão proteica na maturidade. De acordo com Vânia Assaly, o aumento indiscriminado da proteína animal nem sempre se traduz em melhor controle metabólico. A nutróloga ressalta que, dependendo da origem e da composição da fonte animal escolhida, pode haver uma elevação dos parâmetros inflamatórios no organismo, piorando a resposta do hormônio insulina. Ela defende a preservação da massa muscular na menopausa, reforçando, contudo, a importância de diversificar o prato com proteínas de origem vegetal, a exemplo de tofu, grão-de-bico e lentilhas.
Recomendações e limitações do estudo
Para a aplicação prática das descobertas, especialistas sugerem uma reestruturação do prato cotidiano, destinada a fazer com que cerca de 70% dos alimentos ingeridos sejam compostos por vegetais, legumes, grãos integrais e sementes oleaginosas, reduzindo drasticamente o consumo de produtos ultraprocessados.
Os próprios autores do trabalho e a comunidade acadêmica destacam ressalvas metodológicas no tocante aos achados. Trata-se de uma pesquisa epidemiológica de caráter observacional. Por essa razão, os dados estabelecem associações estatísticas relevantes entre as dietas analisadas e o comportamento do peso, mas não permitem comprovar uma relação direta de causa e efeito determinística.
Além disso, as informações referentes ao peso das voluntárias foram obtidas via autorrelato bianual, enquanto os registros nutricionais foram coletados por meio de questionários de frequência alimentar preenchidos a cada quatro anos ao longo do monitoramento.




