Da calçada histórica às telas da Netflix
Uma descoberta científica realizada em Araraquara (SP) deu origem a um dos mais recentes símbolos de orgulho da paleontologia nacional: o icnogênero Farlowichnus, identificado a partir de pegadas fossilizadas encontradas na localidade. A novidade agora atravessa gerações — o dinossauro aparece como personagem na série “Jurassic World: Teoria do Caos”, disponível na Netflix, e teve versão de brinquedo oficial lançada pela fabricante Mattel.
Um deserto jurássico em Araraquara
As pegadas que originaram o registro do Farlowichnus foram localizadas na chamada Formação Botucatu — arenitos formados há cerca de 130 milhões de anos, quando o território da atual região paulista era dominado por dunas e fazia parte de um enorme deserto interno, o “paleodeserto” da Bacia do Paraná.
Os vestígios fossilizados preservam trajetos — chamados de trackways — que revelam muito sobre os hábitos do animal. A metodologia de análise foi publicada em 2023 por pesquisadores da UFSCar e da UFRJ.

Quem era o Farlowichnus
- As pegadas mostram que o dinossauro era pequeno, de estatura modesta — comparável a uma seriema atual (aproximadamente 60 a 90 cm de altura).
- A morfologia das pegadas indica um animal cursorial, ou seja, adaptado a correr em solos arenosos: o terceiro dedo dos pés era dominante, sugerindo uma locomoção quase monodáctila — eficiente em dunas.
- A análise sugere parentesco distante com grupos de terópodes como os noassaurídeos, adaptados a ambientes áridos — o que reforça a diversidade da fauna cretácea brasileira.
Da ciência à cultura pop
A transposição do Farlowichnus para o entretenimento e o mercado de brinquedos é um marco para a paleontologia nacional. A Mattel adaptou o fóssil — essencialmente uma pegada — para criar um dinossauro completo, com visual pensado para encantar crianças e fãs da franquia. A série animada oferece ainda mais visibilidade, conectando a descoberta científica ao imaginário global.
Para os cientistas envolvidos, esse salto da academia para a cultura pop representa um ganho importante: “é uma forma de valorizar nosso patrimônio fóssil e mostrar que o Brasil também escreveu parte da história dos dinossauros”, disse o paleontólogo responsável pela pesquisa.

Legado e importância para Araraquara e o Brasil
- A preservação das pegadas no acervo da UFSCar e a exposição dos fósseis no museu de São Carlos garantem que a população local — e futuras gerações — tenha contato com esse importante vestígio do passado.
- A descoberta reforça a relevância da Formação Botucatu como um dos mais ricos sítios fossilíferos do período Cretáceo no Brasil, com potencial para revelar outros vestígios ainda desconhecidos.
- A inserção em mídias internacionais ajuda a internacionalizar a paleontologia brasileira e a valorizar o patrimônio científico nacional.




